quinta-feira, setembro 16, 2004

"Eu sou mamãe!"

Quando eu falei isso para a minha mãe ao telefone, na noite de ontem, a coitada quase teve uma parada cardíaca. Ficou muda um pouco, enquanto sentia o coração disparar, pensando mil coisas, e assim que conseguiu reunir um mínimo de forças, perguntou:
- Como assim, minha filha?
- Mãe, eu fui na pet shop e adotei um gatinho hoje!!!
- ...
- Alô? Mãe...?
- VOCÊ QUER ME MATAR DO CORAÇÃO?!!!!!!!

Fora o susto, pelo qual já fui devidamente repreendida, a verdade é essa: agora somos eu, o Emi e um gatinho fofo, os três moradores do apartamento mais gostoso da paulicéia desvairada. E logo logo eu escrevo sobre a saga da adoção _um capítulo à parte.
Por enquanto, segue uma enquete sobre o nome do filhote:

Sugestão do Emi
Pebê (P&B, por ele ser pretinho com a barriguinha e a pontinha das patas brancas)

Minha sugestão
Morfeu (sempre achei que esse nome tinha tudo a ver com gatos, já que é o deus grego do sono. Inclusive ele está agora mesmo tirando aquele cochilo maravilhoso no meu colo)

E aí, o que vocês acham?
Também estamos aceitando sugestão de novos nomes.
Estréia!

Tá, para quem não leu o Vida & Arte do Povo no dia 4 de setembro, aqui vai a minha primeira (de muitas, espero!) crônica publicada!
:-D
Para quem já leu, por favor, não fiquem zangados. Prometo que um dia eu atualizo esse blog!
;)

A crise dos 25

Amarílis Lage Especial para O POVO

[04 Setembro 16h53min 2004]

CRÔNICA - Balzac errou. Hoje, a crise dos 30 começa aos 25. Pelo menos para algumas pré-balzaquianas cujo afã de realizar projetos parece inversamente proporcional ao tempo vivido ou porvir. Mas que venha a maturidade. Fase que também permite guinadas e 'o começar de novo', entre erros e acertos (Esse comecinho foi a Ethel quem fez!)


Dia desses eu estava conversando com a minha irmã caçula quando tocou uma música qualquer e eu disse: ''ah, eu gosto dessa''. Ela respondeu, após se concentrar um pouco para tentar descobrir que música era: ''ah, eu sei, é uma do seu tempo, né?''. Respirei fundo.

''Como assim do meu tempo'', pergunta Matusalém.

Até parecia que eu era uma sequóia de 300 anos colocando na vitrola o mais recente disco do Nelson Gonçalves, ainda esculpido em pedra. Minha irmã ainda tentou explicar, do alto dos seus dezessete anos, que nem era uma música tão antiga assim, que ela gostava muito de ouvi-la quando era criança etc... Mas quer saber, sua... sua adolescente-pré-vestibulanda!, dá licença que eu preciso pegar o próximo brontossauro rumo ao Paleolitick Park.

E então, com um pedaço de carvão nas mãos, comecei a escrever nas paredes de minha caverna esses resmungos sobre essa droga que é entrar na famosa crise dos trinta - quando a gente começa a ser xingada de ''tia'' ou ''tio'' no meio da rua, descobre que nossos gostos já estão no momento revival, deixa de reconhecer as bandas que aparecem na MTV e conclui que, definitivamente, está mais do que na hora de começar a usar um bom creme para o rosto. Exatamente isso. A crise dos 30. Só que eu tenho 25.

Por um momento pensei que estava sendo precoce ou, num surto de originalidade, criando todo um novo paradigma de neurose para orientar as novas gerações de pessoas problemáticas. Pensei até em escrever um livro sobre esse tema quando descobri que já tinham feito antes: A crise dos 25 anos, recém-lançado no Brasil e escrito por duas norte-americanas. Ainda nem li, mas já desisti de fazer o meu. Não dá para competir com esse povo quando o assunto é gente neurótica. Lembrem-se: eles têm o Woody Allen. Mas a mera existência desse livro já me fez ver que o problema não é só comigo.

Será que esse sentimento é geral? E os 25 são o novo limite hamletiano para o ser ou não ser? A linha imaginária que divide o ''jovem promissor'' daquele que ''poderia ter sido tanto''? E quando, afinal, a gente sabe se algo deu certo? O pior é aquela sensação de que, certo ou errado, grande parte do caminho já foi traçado. E, a essa altura do campeonato, não dá mais para decidir que vai se tornar um pianista profissional ou representar o Brasil na equipe de ginástica olímpica nas próximas Olimpíadas. Não mesmo.

Não que eu quisesse realmente me tornar uma ginasta ou algo assim. Mas bate uma saudade do tempo em que todas as possibilidades de futuro pareciam abertas e tudo era uma mera questão de escolha. E a gente olha para o caminho que escolheu e pergunta ''como assim, Bial?''. Cadê meu doutorado em sociologia na Sorbonne? Cadê todas as opiniões fantásticas que eu ia ter sobre tudo? Cadê os livros que eu ia escrever? E quem inseriu no meu futuro o item ''pilha permanente de louça suja na pia da cozinha?''

Talvez esse quebra-cabeças incompleto seja mesmo tudo o que a vida tem a oferecer quando a gente tem 25 e a minha geração que, pressionada por fora e por dentro, tenha se tornado impaciente e queira tudo para agora. Quando as melhores coisas ainda estejam por chegar.

De qualquer forma, confesso que criei um hábito meio ridículo. Passei a ler todas aquelas matérias com o título ''Fulana, ainda mais maravilhosa aos 30'' e comecei a procurar, na biografia das pessoas que admiro, a idade que tinham quando fizeram algo realmente fenomenal. Fiquei muito satisfeita ao ver, por exemplo, que Charlie Kaufman, o roteirista-sensação de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, escreveu Quero Ser John Malkovich quando tinha quase quarenta anos. E Nick Hornby, autor de Alta Fidelidade e Como ser Legal publicou seu primeiro livro aos 35. Ou seja, ainda há tempo das minhas coisas também darem certo.

E uma amiga que aturou nas últimas semanas meus resmungos de coroa precoce não me deixa mentir: apesar de minha atual sensação de ''perdi o bonde'', também há tempo para mudar os rumos de tudo. Ela mesma, quando tinha a minha idade, largou o trabalho, a casa, o cachorro, e foi trabalhar como au pair em outro país. E, no próximo mês, vai começar seu primeiro estágio na nova profissão: hotelaria. No próximo ano, se tudo der certo, talvez até volte ao Brasil, para comemorar conosco seu aniversário de trinta anos. E nós vamos ter muito o que conversar sobre os velhos tempos. E sobre os novos também.

Amarílis Lage é jornalista e tem 26 anos, mas jura que é a primeira vez que mentiu a idade e até o mês passado realmente tinha 25.